Robôs roubarão seu emprego ou sua identidade?

Recentemente tive a chance de presidir um fórum sobre robótica no Cato Institute, intitulado “Robôs roubarão o seu emprego?”. Presentes estavam Randy Bateman, investidor na área de robótica, e Adam Keiper, editor do The New Atlantis. O fórum expôs diversos pontos de consenso; todavia, abundam questões sobre robótica e futuro do trabalho.

As revoluções econômicas anteriores – agrícola, industrial e digital – alteraram profundamente o padrão laboral, mas não eliminaram a necessidade do fator humano. Ao reduzir não só a necessidade do esforço braçal, mas também mental do homem, os robôs ameaçam fazer exatamente isso. Mas, se o trabalho humano se tornar obsoleto, como tal obsolescência impactará a sociedade e a nossa noção de ser?

A revolução robótica não marca a primeira vez que a humanidade teve de lidar com mudanças econômicas profundas. Dez mil anos atrás, nossos ancestrais caçadores-coletores descobriram a agricultura. Antes dela, pequenos grupos nômades de Homo sapiens vagavam pela Terra. O que matavam ou pescavam era dividido entre seus membros, o que deu origem às características igualitárias de nossa “natureza humana”.

Com a agricultura veio o estilo de vida sedentário, o planejamento de longo prazo (reflexão sobre poupança e investimento), a compreensão mais completa do significado de direitos de propriedade e, por fim, a acumulação de riqueza. Paralelamente, os humanos desenvolveram hierarquias funcionais: i) reis para proteger a vida e direitos, ii) juízes para resolver disputas e distribuir punições e até iii) sacerdotes o garantir a chuva e colheitas abundantes.

Agricultura e feudalismo substituíram caça e coleta, e a humanidade se adaptou.

Avançamos 250 anos, e temos a Revolução Industrial, que começou na Grã-Bretanha e se espalhou para outras partes do mundo. Nesse período, a humanidade desenvolveu novos materiais – vidro plano e aço; novas fontes de energia – eletricidade e petróleo; novos meios de transporte – vapor e motor de combustão interna; e novas máquinas – tear mecânico e máquinas de costura.

O sistema fabril levou não só à consolidação da divisão do trabalho (e, consequente, especialização), mas também a um crescimento enorme na produção de bens manufaturados e no comércio internacional. A urbanização crescente conduziu a melhorias no saneamento, na educação e na consciência política dos cidadãos. O colapso concomitante do emprego na agricultura – a participação desse tipo de mão-de-obra na PEA dos Estados Unidos caiu de 40% para 1,5% hoje – foi considerada por muitos uma tragédia. Ainda assim, a renda per capita no mundo aumentou de US$ 3,5 por dia em 1820 para US$ 33 em 2010.

Agricultura e feudalismo cederam lugar à democracia e capitalismo, e a humanidade se adaptou.

A década de 1970 viu o início da revolução digital, que continua até os dias de hoje. Os avanços rápidos na ciência e tecnologia aumentaram sensivelmente a velocidade e reduziram substancialmente o custo de microprocessadores e computação avançada. PCs, celulares e internet se tornaram onipresentes em nossa vida pessoal e profissional. Computação, fotografia, cinematografia, televisão e rádio analógicos renderam-se à tecnologia digital. Telegramas, máquinas de escrever, telefones públicos, fitas-cassete e VHS desapareceram ou estão prestes a desaparecer.

Como foi o caso com as revoluções agrícola e industrial, a revolução digital gerou mudanças na economia, mas não resultou em desemprego em massa. Apesar do crescimento da população global, as oportunidades de emprego só crescem. Em vez de serem substituídos por computadores, os humanos passaram a construir a infraestrutura subjacente à computação digital. Pense em quão frustrante seria se você não pudesse chamar o “técnico” quando seu computador tivesse problemas.

Em outras palavras, a humanidade se adaptou.

Hoje, testemunhamos o início da revolução robótica. No futuro próximo, a habilidade e o uso de robôs crescerão exponencialmente. A mudança que está por vir nos oferece um conjunto incrível de oportunidades: eliminaremos empregos perigosos, sujos e humilhantes, enquanto exploraremos 2/3 do planeta que são inóspitos para a vida humana.

Não obstante, a robótica impõe um conjunto especial de desafios. As revoluções econômicas anteriores reduziram a necessidade do esforço braçal; a revolução robótica ameaça reduzir a necessidade do esforço mental. De acordo com esse relatório, recepcionistas, bancários, vendedores, motoristas, seguranças e garçons podem ficar desempregados em breve. Com o tempo, a expansão da inteligência artificial poderá tornar até as competências mais específicas obsoletas.

Se o passado serve como guia, os humanos se adaptarão. Talvez haja forma de vencer a “batalha evolucionária” contra as máquinas fundindo-se a elas. Plugar nossos cérebros a uma matriz é certamente imaginável, mas a espécie que emergirá se chamará Homo sapiens ou se tornará um Homo roboticus?

E isso importa? Outros “futuros” são muito menos convincentes. O fracasso na adaptação resultaria em uma crescente inutilidade da espécie. Poderíamos nos tornar desempregados, irrelevantes, desorientados, preguiçosos e obesos: um tipo de Homer simpsonicus.

Pessoalmente, suspeito que a antiga visão do futuro é mais provável que a citada no parágrafo anterior. Em 1830, frente ao crescimento da Revolução Industrial, o historiador inglês Thomas Babington Macaulay notou:

“O homem sempre soube da evolução que culminou em seus dias; ninguém parece reconhecer qualquer melhora na geração seguinte. Não podemos provar errados os que pensam que a sociedade chegou a um ponto de inversão – que o melhor já passou. Mas assim disseram todos os que vieram antes de nós… Que lógica sustenta que só houve progresso antes de nós, e que só resta degradação depois de nós?”

É tempo de repensarmos nossas ações, nos preparando para a próxima revolução econômica!

Artigo original: Will robots take your job? (Or your identity?)
Autoria: Marian L. Tupy