O Brasil está emergindo como um centro de inovação em IA de classe mundial

4 / 03 / 2020

O governo do Brasil tem grandes planos para a IA, apesar de ter se atrasado na festa. No índice AI Readiness Index 2019, publicado pela Oxford Insights, o Brasil aparece na 42ª posição entre 192 países, sinalizando que a potência sul-americana está crescendo no cenário mundial de IA. O relatório analisa quão prontos estão os países para tirar proveito das tecnologias de IA que a PwC prevê adicionarão US$ 15 trilhões à economia global até 2030.

O relatório de 2019 alerta que o “hemisfério sul pode ficar para trás na chamada 4ª Revolução Industrial.” Mesmo com algumas das nações mais ricas do planeta, incluindo Canadá, China, Alemanha, Japão, Singapura e Estados Unidos sendo reconhecidas como centros de inovação em IA, conforme a Deloitte, a América do Sul – liderada pelo Brasil – está emergindo como uma líder em negócios potencializados pela IA.

O futuro da economia do Brasil depende de uma grande contribuição das tecnologias de IA, e o país é líder na América Latina, segundo as conclusões da AI Global Vibrancy Tool, ferramenta que compila o 2019 AI Index da Stanford University. O estudo concluiu que, durante os últimos quatro anos, o Brasil acelerou para se tornar um dos cinco países no mundo que mais contratam em IA.

A consultoria Accenture prevê que, até 2035, a IA colaborará com 1% para o crescimento anual do PIB em toda a América Latina. No caso do Brasil, já a maior economia da América Latina, essa previsão “maximizaria o GVA 2035 da economia brasileira em US$ 432 bilhões, o que representa um aumento de 0,9% frente ao cenário de referência.” Outros países latino-americanos também devem se beneficiar do crescimento no GVA anual no mesmo período – notavelmente, US$ 78 bilhões na Colômbia, US$ 63 bilhões no Chile, e US$ 59 bilhões na Argentina.

“A inteligência artificial oferece à América Latina a oportunidade tão esperada de atingir níveis superiores de inovação, produtividade e progresso socioeconômico”, escreveu Armen Ovanessoff, diretor da Accenture Research, no relatório. 

Onde estão as oportunidades?

Uma área que está no alvo da inovação em IA é o setor de serviços financeiros. Ele foi duramente atingido e, então, fortemente regulado após as falências bancárias das décadas de 1980 e 1990. As empresas de tecnologia do Brasil que criaram alternativas aos entraves burocráticos e processos antiquados de fazer as coisas hoje prosperam no Brasil, segundo a CB Insights, LAVCA, e outras organizações que monitoram os melhores investimentos nesses setores. Outros setores em rápido crescimento que a IA está revolucionando no Brasil incluem e-commerce, entrega sob encomenda, logística, mídias digitais e entretenimento.

Felizmente, a população brasileira é ávida por tecnologia e já utiliza muitos serviços on-line, o que significa que as tecnologias de IA têm grandes chances de impactar a indústrias. O relatório Internet Trends 2019, publicado por Mary Meeker, ranqueia a população brasileira como o quinto maior grupo de consumidores on-line do mundo. Um relatório da PwC sobre o consumo global em 2018 concluiu que 59% dos brasileiros planejam comprar um dispositivo de IA, o nível mais elevado entre os 10 primeiros países na pesquisa.

De acordo com a Kwintessential, o Brasil só perde para os Estados Unidos em número de usuários de mídias sociais como Facebook, Twitter e YouTube. Os dispositivos móveis superam o número de habitantes, e grande parte dos 211 milhões de cidadãos do Brasil compra com frequência pela internet, segundo a PagBrasil. Dos 149 milhões de usuários de internet no Brasil, 139 milhões são mobile e baixaram mais de 7,3 bilhões de aplicativos em 2018, aparecendo no top-4 do mundo, segundo a Forbes. 

Dois desafios importantes da IA são resolver os congestionamentos criados pelas grandes cidades brasileiras e atingir pessoas em um território de mais de 8,5 milhões de km². A IA tem a oportunidade de fazer entregas locais e estaduais de produtos de forma mais rápida e eficiente, o que significaria menos poluição, custos e tráfego.

Novos laboratórios de P&D

O Brasil e outros grandes países da América Latina estão se equiparando a seus pares quando se trata do financiamento de inovação em IA. O governo brasileiro anunciou recentemente a criação de uma rede de oito laboratórios de P&D em IA.

Durante seu lançamento em novembro, Marcos Pontes, ministro de ciência, tecnologia, inovação e comunicações do Brasil, disse que oito laboratórios de P&D maximizarão a “habilidade de raciocinar, planejar e investir no futuro do Brasil, criando ferramentas para resolver problemas e melhorar nossa qualidade de vida.”

Um dos novos laboratórios envolverá o exército brasileiro, focando em tecnologia de ponta em IA para áreas como cibersegurança. Os outros sete centros de P&D trabalharão em inovações ligadas ao plano nacional de IoT, que conta com quatro pilares principais: agronegócio, saúde, manufatura e cidades inteligentes.

O Brasil entende que, para se manter vivo no mercado internacional da IA, precisa criar e reter talentos. Além da tentação de salários maiores, os melhores são atraídos por oportunidades que lhes permitam resolver os problemas mais importantes de nosso tempo.

Para manter os talentos aqui, a IBM está prestes a lançar um laboratório de IA em São Paulo em 2020. Será o primeiro instituto da rede AI Horizons Network na América Latina, criada pela IBM em 2016 com o foco de aproximar universidades, estudantes e pesquisadores da empresa. Ele será gerido em conjunto com a FAPESP, tentando resolver problemas reais do Brasil, tais como o melhor uso dos recursos naturais e inovação no agronegócio e saúde.

Como resolver o problema da falta de profissionais capacitados em IA?

Conforme um estudo da IBM lançado em setembro, “o déficit de qualificação não é um mito, mas pode ser resolvido com soluções reais”. Os pesquisadores – que entrevistaram 5670 executivos globais em 48 países – concluíram que praticamente 120 milhões de trabalhadores nas 12 maiores economias do mundo precisarão ser retreinados para ter sucesso em uma era de IA e automação inteligente.

Um estudo da Gartner lançado no início de 2019 concluiu que 37% das organizações implementaram IA em algum nível, mas têm dificuldade com a falta de talentos. Apesar do déficit de profissionais em IA, a Gartner concluiu que o número de empresas empregando IA cresceu 270% nos últimos quatro anos.

Peter Norvig da Google, uma lenda da IA, falou sobre o déficit de talentos em IA e a concorrência por eles na conferência BayBrazil no Vale do Silício. Ele disse que se reúne com muitas startups que reclamam que não conseguem contratar especialistas em IA do MIT ou Stanford porque as grandes empresas de tecnologia os contratam primeiro.

Quando ele ouve essa reclamação, oferece um conselho sábio através de uma analogia. “Se o dono de um novo restaurante me dissesse ‘o que meu negócio mais precisa hoje é de um PhD em design de fogões do MIT’, essa é uma forma equivocada de pensar. Em realidade, o dono do restaurante precisa de um chef que saiba preparar pratos deliciosos que, então, dirá a ele que fogão comprar. Você não precisa criar um fogão do zero.”

A questão hoje é treinar as pessoas para entender não só como usar as ferramentas de IA, mas também como implementá-las em todos os níveis do negócio. Com o investimento conjunto do governo brasileiro e do setor privado em pesquisa em IA, esse déficit de conhecimento será reduzido.

De agora em diante, a IA terá um papel essencial na tomada de decisão das pessoas. Para a América Latina – liderada pelo Brasil – a tecnologia promete criar uma vantagem competitiva significativa no setor comercial, crescimento mais rápido do PIB, benefícios sociais amplos, e maior progresso socioeconômico para todos.

Artigo original: https://www.archyworldys.com/brazil-is-emerging-as-a-world-class-artificial-intelligence-innovation-center/

Autoria: Bruno Henriques, vice-presidente de desenvolvimento e inteligência artificial na empresa iFood.